02/05/2018
Educação, Produtividade e Desenvolvimento Econômico*

Nos campos da política à economia, da saúde à segurança pública, da educação à geração de empregos, ou da infraestrutura à urbanização, são muitos os problemas para o Brasil resolver. E, dado o lamentável estado em que se encontra o País atual, todos com urgência e merecendo a atenção de qualquer governo. 

Quando se discute economia, por exemplo, é quase automático abordar os baixos índices de produtividade que caracterizam grande parte do processo produtivo brasileiro e que diminuem nossa competitividade.  

Recentes estudos do Banco Mundial (“Emprego e Crescimento: A agenda da produtividade”), por exemplo, dão conta que, caso a produtividade brasileira fosse similar à dos Estados Unidos, a renda per capita no Brasil aumentaria 2,7 vezes se comparada com a atual. E o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) em seu documento “Desafios de uma Nação”, aponta que seria preciso que o Brasil, além de ter que dobrar os investimentos em infraestrutura, precisaria multiplicar por três (de 0,5% aa para 1,5% aa) a expansão da produtividade, caso queira, em 2050, dobrar a renda per capita do brasileiro. Já o BNDES, ao preparar seu novo programa de linhas de financiamento para o desenvolvimento (constante no documento “Visão 2035 – Brasil, país desenvolvido”, publicado em março deste ano), explicita: “crescimento (econômico) acima de 2% aa, de forma sustentada, só com grandes saldos de produtividade”. E mais adiante: “uma das razões da baixa produtividade brasileira é a baixa qualidade da educação básica”.

O economista Eric Hanushek, doutor em economia pelo MIT e professor da Universidade Stanford dos EUA, fez um estudo em cerca de 80 países e constatou que “a boa formação escolar de uma população explica em torno de 75% do PIB”. “E olhe que estamos tratando apenas de conhecimento básico mesmo – matemática, linguagem, ciências e a capacidade de juntar as peças e solucionar problemas simples”. 

O coordenador do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), matemático Marcelo Viana, por sua vez, em entrevista feita para a Revista Veja, de 27/04/2016, quando comentava sobre a relação entre educação e ciências e o PIB, também tem o mesmo entendimento, quando afirma, segundo estudos feitos na Inglaterra, que “uma boa base educacional e científica na área (matemática, no caso), aumenta o PIB do país em cerca de 10%. Isso ocorre porque, graças à matemática de excelência, a produtividade se eleva em campos como a computação e as engenharias, que fazem girar a roda da economia criando empregos muito acima da média”. A educadora e coordenadora pedagógica do Grupo Horizontes, Neda L. M. Branco diz que “investir na linguagem, como centro do processo educativo e responsável pelo universo vocabular, pela leitura significativa e pela comunicação, tanto oral, quanto escrita, é primordial, pois só através dela é que o indivíduo terá acesso a todas as áreas do conhecimento. Linguagem e Pensamento são conceitos correlatos”. O que se espera do ensino básico, continua a educadora, é que se possa “promover a emergência de seres pensantes, capazes de entender plenamente o que ouvem e o que leem, para agir de forma operatória sobre enunciados lógicos e científicos, bem como, para proceder à intelecção e análise de textos, de qualquer gênero”. 

Segundo a Diretora Sênior Global de Educação do Banco Mundial, em artigo publicado no Estadão de 29/11/15, quando comentava as informações do Relatório do Banco Mundial (Sustentando Melhorias no Emprego e nos Salários no Brasil: uma Agenda de Competências e Empregos), “o desenvolvimento de competências como leitura, interpretação de textos, raciocínio matemático e de aplicação de um repertório científico e cultural em problemas da realidade é importante para qualquer caminho profissional posterior”. “Essas competências devem ser trabalhadas nas escolas regulares e reforçadas em cursos profissionais ao longo da vida de cada indivíduo”. 

Portanto, pode-se concluir que ganhos de produtividade somente poderão ser obtidos a partir da capacitação de pessoas, uma vez que, de forma direta, são elas as responsáveis pelo sucesso das atividades voltadas à inovação, ao desenvolvimento da tecnologia, da ciência e das pesquisas,

Para isso, uma das receitas defendidas por muitos especialistas, é unir o setor produtivo às escolas, convencendo estas últimas que, além do relevante papel na educação dos jovens, via transmissão de conhecimentos, elas também precisam produzir conhecimentos voltados à produção e à organização do processo produtivo, notadamente as universidades e os cursos técnicos, com programas específicos que estimulem a inovação, o empreendedorismo, a sustentabilidade e o gosto pela pesquisa. Neste ponto, permito-me reforçar: a união entre a classe empresarial e os responsáveis pelo direcionamento da educação precisa ocorrer desde o ensino médio, pois é fundamental estimular os alunos, principalmente os adolescentes, que ir à escola não é uma “coisa ruim”, podendo se transformar, além de útil, uma atividade agradável. E isso, repito, em todos os níveis educacionais, pois o prosseguimento na vida escolar ficará totalmente comprometido caso a base não esteja com os mesmos objetivos e qualificação. Escolas com alto padrão de ensino, nas quais os alunos não ficam somente decorando datas e fórmulas, mas aprendendo a resolver problemas, estão diretamente ligadas ao aumento da produtividade e, consequentemente, ao crescimento de um país. Profissionais capazes e bem formados são instrumentos de empreendedorismo, inovação e de aumento da produtividade.

Infelizmente o Brasil está atrasado! Além de termos, ainda, um número altíssimo de analfabetos (segundo o IBGE/PNAD, são mais de 12,8 milhões de brasileiros, isto é, 7,2% da população brasileira com mais de 15 anos), são péssimas as colocações do Brasil nas avaliações de desempenho educacional. Nos níveis médio e fundamental (PISA-Programa Internacional de Avaliação de Estudantes; IDEB-Índice de Desenvolvimento da Educação Básica ou ENEM-Exame Nacional do Ensino Médio) nossas avaliações são desastrosas. E quando analisamos os resultados dos exames realizados pelos recém-formados, um verdadeiro vexame (OAB-Ordem dos Advogados do Brasil e CREMESP-Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo são exemplos). Sem considerar, é claro, o baixo percentual de alunos que concluem o ensino superior: segundo dados do Censo de Ensino Superior do MEC, em 2016 foi de apenas 43,1%.

Faço questão, aqui, de ressaltar comentário da antropóloga da USP, Eunice Durham: “Na prática, (os professores) não sabem alfabetizar. Escrevem mal. Não sabem matemática básica e não sabem sequer ensinar aritmética. São muito mal formados, inclusive, já antes, no ensino fundamental. E não há nenhum processo para reforçar a formação”. Ana Carla Abrão, economista e sócia da Consultoria Oliver Wyman, em artigo publicado no Estadão (01.05.18) é clara: “Os cursos de pedagogia não atraem os melhores e formam mal aqueles que atraem”. Não bastassem esses tipos de problemas ainda temos que conviver, principalmente nas universidades, com a utilização da educação para fins ideológicos, que além de ‘desorientar’ os alunos, ainda cria um clima de 'patrulhamento' que ignora os valores da tolerância e da democracia. Para piorar, segundo Maurício Guedes, engenheiro e diretor do Parque Tecnológico da UFRJ, em artigo escrito em 11.04.18 para o jornal Valor, o CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Capes), órgão que tem como uma de suas atribuições, financiar cursos de mestrado e doutorado, reduziu seu orçamento em 34% entre 2015 e 2017. E para 2018 as expectativas são piores! Haja atraso!
 
O mesmo ocorre quando nos deparamos com as estatísticas que avaliam a Inovação no Brasil (a posição do Brasil, no Índice Nacional de Inovação, elaborado pela Universidade de Cornell, dos EUA, Insead, da França e pela Organização Mundial de Propriedade Industrial, é a 69ª, em 127 países analisados. Entre 2011 e 2016 nosso País perdeu 22 posições), ficando evidente que é cada vez mais difícil obter benefícios oriundos da “inovação” e do desenvolvimento tecnológico, a não ser pela via da importação. Aliás, como demonstram os seguidos déficits de nossa balança comercial de produtos de média/alta e alta tecnologia. 

Observando agora os índices de investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), um dos principais pilares do desenvolvimento de um país, o Brasil também não tem muito o que comemorar, pois a maioria das pesquisas publicadas indica que os investimentos brasileiros nesta área, estão muito abaixo da média observada nos principais países do mundo. Informações do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) indicam que apenas 15% do total arrecadado em 2016 (R$ 4 bilhões) foram liberados para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação. O mesmo desempenho ruim se vê quando se analisa o Índice de Prontidão às Mudanças (capacidade de reação às mudanças que, em tempos cada vez menores, acontecem em todo o mundo), elaborado pela KPMG: em 2017, entre 136 países, o Brasil ficou com a 79ª posição (nota 0,49 para um máximo de 1). Essa pesquisa também mostra nossas fracas notas em empreendedorismo e gastos públicos com inovação: 0,50 e 0,28, respectivamente. 

Resumindo: a baixa qualidade do ensino, em todos os níveis, a ineficácia dos investimentos realizados (mais do que a quantidade de recursos é preciso discutir formas mais eficazes e corretas de aplicação e controle, até porque o Brasil tem índices de investimento satisfatórios e acima até de países desenvolvidos), o pouco e ineficiente incentivo nos campos da ciência, da pesquisa e da inovação, são diretamente proporcionais às baixas qualificação e capacitação do trabalhador brasileiro e, consequentemente, obstáculos ao aumento da produtividade do trabalho, à competitividade e ao desenvolvimento. Círculo vicioso que, de forma cruel, condena qualquer país ao atraso. 

Portanto, repetindo o que tenho citado em artigos anteriores, é preciso transformar nossos trabalhadores em verdadeiros profissionais, focados nos clientes, capacitados, inovadores, preparados para a solução de problemas e para o futuro, principalmente no que diz respeito aos avanços tecnológicos. Aproveito a excelente ‘dica’ dada pela escritora Lya Luft e incluo na lista, “mais educados”. Segundo ela, “um povo educado é um povo informado, que saberá ter consciência de suas responsabilidades e escolher seu destino. Com a educação de todos, sem exceção, virão os demais benefícios necessários a um povo digno, como saúde, infraestrutura, segurança, economia equilibrada e florescente, ótimas relações com países estrangeiros e lugar de destaque entre as nações civilizadas” (“Deseducando o Brasil”, publicado pela Revista Veja dia 03/02/2016).

Para que o Brasil avance, de forma concreta e sustentável, rumo ao futuro, é imprescindível, entre outras providências também urgentes, que a educação se transforme em prioridade nacional e considerada como estratégica e instrumento de desenvolvimento, pois não há espaço para improvisos, incompetência, demagogia ou populismo. Alie-se a tudo isso que educação de alto nível também é fundamental para a manutenção da democracia, da cidadania e da dignidade de seu povo, seja como ser humano, como cidadão ou profissional. A educação ainda é o melhor caminho, o mais rápido e de menor custo, para se promover o desenvolvimento e se alcançar melhorias efetivas no processo de distribuição de renda. Enquanto isso não ocorrer, nos manteremos na posição de país do futuro.

 

 

Fonte: * Paulo Roberto Guedes é consultor de empresas e professor do curso de Logística Empresarial do GVPec, da EAESP/FGV. É colunista do Guia do TRC.
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