21/07/2017
Brasil, ainda o País do Futuro? – Parte III
Para complementar, evidentemente sem jamais esgotar o tema que me propuseram comentar, começo esta terceira e última parte analisando os Gastos do Governo que, como já salientado, é outro importante componente da Demanda Agregada.
 
Os Gastos do Governo, apesar da crise econômica atual mantiveram-se em percentuais altos. Óbvio que, diante do desempenho negativo dos demais componentes da Demanda Agregada, esta rubrica em relação ao PIB aumentou. De 18,0% em 2014, para 19,7% em 2015 e 20,2% em 2016, conforme dados da SPE/MF. Apenas como ilustração: em 1991 elas representavam 10,8% do PIB e em 2002, 15,9%. 
 
As receitas governamentais, por outro lado, diminuíram e ainda podem diminuir de forma substancial (1), uma vez que: a) houve queda real da arrecadação proveniente da diminuição do PIB; b) o sistema tributário se mostra inadequado para acompanhar a nova realidade da economia brasileira (2); c) o governo geralmente tem considerado um volume muito grande de arrecadações extraordinárias que, em muitos momentos não deverão acontecer como o previsto (3). 
 
Com gastos governamentais em crescimento e arrecadação em queda, não haveria outro resultado a não ser um extraordinário rombo nas Contas Públicas. Os resultados primários do Governo Central (antes dos resultados primários dos Estados, Municípios e Estatais e da conta Juros) foram negativos em 0,3% do PIB em 2014, 1,91% em 2015, 2,48% em 2016 e poderá chegar a 2,39% em 2017. O Instituto Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal prevê déficit primário de R$ 142,05 bilhões em 2017 e R$ 127,5 bilhões em 2018. O orçamento, para 2017, tem aprovado déficit de R$ 139 bilhões! Considerando a extrema dificuldade para que se alcance esse número, não está descartada o aumento de impostos!
 
Para 2018 o déficit aprovado, ainda na semana passada pelo Congresso Nacional, para todo o setor público é de R$ 131,3 bilhões, sendo que o Governo Central (Tesouro, Previdência e BC) chegará a resultado negativo de R$ 129 bilhões, as Estatais Federais, resultado negativo de R$ 3,5 bilhões e os Estados e Municípios um superávit de R$ 1,2 bilhão. O Fundo Monetário Internacional (FMI), ao concluir o Artigo Quarto de Consultas do órgão, projeta superávit primário de 0,5% para o Brasil, somente no ano de 2.022.
 
Há vários problemas para se combater os déficits orçamentários, mas vale destacar que a rigidez dos gastos públicos, seja pela folha dos servidores, pelas despesas obrigatórias (aquelas que não podem ser cortadas, ao contrário das chamadas despesas discricionárias – custeio e investimento – que poderão ser ou não realizadas, dependendo do desempenho orçamentário) ou pelos gastos com a previdência (4), tem dificultado toda e qualquer atitude no sentido de diminuí-los e até mesmo controlá-los. O que não quer dizer que nada possa ser feito. Há oportunidades possíveis. A PEC dos Gastos aprovada pelo Congresso Nacional foi, indubitavelmente, um ponto de inflexão no trato das Contas Nacionais. É preciso, por exemplo, eliminar o excesso de ‘brechas’ que existem na legislação e na economia que permite, indevidamente, que quantias significativas dos impostos deixem de ser arrecadados. As desonerações criadas, muitas delas sem justificativas econômicas reais, precisam ser reanalisadas. Segundo Vilma da Conceição Pinto, do IBRE/FGV, as desonerações criadas nos últimos governos retiram cerca de R$ 72 bilhões por ano dos cofres públicos. Segundo Felipe Saldo, do IFI do Senado Federal, a tributação sobre Pessoa Física, relativa a dividendos recebidos, extinta em 1995 pelo governo FHC, representa algo em torno de R$ 60 bilhões por ano! 
 
Embora não muito comentado pela grande imprensa, os Gastos dos Estados e Municípios também precisam ser discutidos. E de forma séria. Eu, particularmente, já havia escrito sobre este assunto (“A Lei de Responsabilidade Fiscal também precisa ser aplicada com eficácia nos Estados e Municípios brasileiros” – Guia do TRC de 23.08.2016) e volto a fazê-lo. Agora, socorrendo-me do que escreveu, em recente artigo (“Ao redor do abismo” – Globo de 10.07.17), um dos maiores especialistas no assunto, o economista Raul Velloso: “Note-se que esses buracos (os déficits estaduais) vêm sendo meramente empurrados para frente, com os estados parando de pagar alguns itens, a exemplo do 13º salário, como fez o Rio em 2016. Instala-se o caos em algumas áreas, mas aparece um resultado agregado estadual superavitário nas estatísticas do Banco Central, que é, obviamente, falso, mas aplaudido pelo Ministério da Fazenda como indicador de sucesso de sua política de ajuste”. E, conclui Raul Veloso: “É falso (o resultado superavitário dos Estados) por duas razões. Uma, porque os efeitos sobre as áreas afetadas são terríveis (no Rio, um exemplo de hoje é a ocorrência de três mortes diárias em média por bala perdida). E duas, porque a Lei de Responsabilidade Fiscal exige que os governantes zerem essa conta nos últimos anos de mandato, sob pena de sanções duras. Ou seja, a esta altura, sem um apoio adequado por parte das autoridades federais, os governadores devem estar com os cabelos em pé para saber como vão escapar no fim do ano de 2018”.
 
No caso da Previdência, rubrica que faz parte do Resultado Primário do Governo Central e que acumula déficits seguidos, a reforma proposta é fundamental. Ainda antes dos “remendos” feitos, em face das negociações políticas que se seguem antes de sua aprovação, a Reforma da Previdência, segundo estudos realizados por Paulo Tafner, pesquisador da FIPE/USP, trariam uma economia, em 11 anos, de quase R$ 607 bilhões!  No acumulado de 12 meses, fechado em maio de 2017, o déficit previdenciário foi de R$ 170,03 bilhões.
 
Os resultados nominais – a chama última linha, que além do Governo Central incluem a conta juros e os resultados dos Estados, Municípios e Estatais, exceto Eletrobrás e Petrobrás -, foram de déficits extraordinários: R$ 344 bilhões em 2014, R$ 613 bilhões em 2015 e R$ 563 bilhões em 2016. A expectativa para 2017 é de R$ 582 bilhões. Com relação ao PIB são, respectivamente, 5,0%, 10,0%, 8,7% e 8,9%. Nos últimos doze meses, até maio de 2017, o déficit já está em R$ 582,2 bilhões, 9,2% do PIB. 
 
Diante disso, não é possível esperar que a dívida do governo diminua ou, no mínimo, se estabilize. Os dados do Banco Central do Brasil dão conta que a Dívida Líquida do Setor Público (inclui Governo Central, Estados e Municípios e Empresas Estatais, exceto Petrobrás e Eletrobrás) é crescente. De R$ 1,9 trilhão em 2014 foi para R$ 2,1 trilhões em 2015, R$ 2,9 trilhões em 2016 e estima-se R$ 3,1 trilhões para 2017. Respectivamente, com relação ao PIB: 32,6%, 35,6%, 46,2% e 47,7%. A Dívida Bruta Federal, segundo o Banco Central, alcançará 77,5% do PIB em 2017 e 78,6% em 2018. Mesmo com a PEC do Teto aprovada, a dívida deverá crescer até 2020.
 
Em face do tudo o que foi exposto até aqui, não é surpresa portanto, que o Brasil esteja enfrentando sua maior crise. Agravada por problemas que envolvem quase todos os setores da sociedade brasileira (educação, saúde e segurança pública que o digam), o País alcançou um nível de gravidade muito maior do que divulga a mídia. Ou já não se vive o caos atualmente? (5). Não é o Rio de Janeiro, estado que reflete muito da realidade brasileira atual, um exemplo definitivo da falência do Estado? Leandro Karnal, em seu livro “Todos contra Todos” (Editora Leya 2017), no capítulo “A violência nossa de todos os dias”, faz uma triste mas correta afirmação a respeito: “Já relembrei em outro momento (em capítulos anteriores do próprio livro) que a história do Brasil é uma história de violência, ao contrário do que nos ensinaram na escola. Somos um país com um histórico de estrupros, linchamentos e ataques variados. Somos um país que vive um clima social de guerra civil, mas assim como os livros de história jamis trataram nossas guerras civis como tais, hoje poucos reconhecem que vivemos sob guerra civil”. Afirmação simplesmente cruel, mas objetiva e verdadeira.
 
Não é momento para alarmismos ou pânico, mas é preciso entender, como dito pela jornalista Vera Magalhães (Estadão do último dia 09), que o “problema político dá sinais de produzir nas grandes cidades brasileiras, uma situação de caos social, na qual prefeitos sem dinheiro, não tem a menor ideia do quê deve ser feito. O aumento na procura por creches, por vagas nas escolas, no atendimento de saúde, no recebimento de medicamentos, por mais vagas em albergues e aumento da violência urbana, por exemplo, tem pressionado governos cada vez com menos possibilidades de atendimento”. 
 
Diante deste calamitoso ‘estado de coisas’, é fácil compreender porque o Brasil vive, atualmente, uma gravíssima crise. Crise que abrange todos os aspectos da sociedade brasileira: políticos, sociais, econômicos, morais e éticos. E que tem colocado nossas instituições em testes, pois vale relembrar que, num brevíssimo espaço de tempo, já tivemos: (i) o impeachment de uma Presidente da República (Dilma Roussef) eleita pelo voto direto; (ii) mesmo após safar-se, em condições ‘estranhíssimas’, das acusações de abuso de poder econômico e utilização de recursos ilícitos em sua campanha política, o atual Presidente da República (Michel Temer), acusado e tendo que responder por crimes de corrupção; (iii) os atuais presidentes da Câmara e do Senado Federal (Rodrigo Maia e Eunício de Oliviera), sucessores constitucionais do Chefe do Executivo Brasileiro, citados como corruptos em diversas delações premiadas; (iv) um outro ex-presidente da República (Sr. Lula) condenado a mais de nove anos de prisão por prática de crime comum, enquanto no exercício do poder. Nem é preciso incluir, nesta pequena lista de horrores, os conflitos existentes entre os três poderes constituídos ou as centenas de políticos, empresários e executivos importantes e de “top” no cenário brasileiro que, se não estão cumprindo penas nas penitenciárias, estão tendo que responder à Justiça (6). 
 
Não pode soar como estranho, portanto, o fato de que as incertezas são cada vez maiores, e que esta crise, com Temer ou sem ele, impede que o governo tenha uma agenda positiva e de reformas estruturantes, não se descartando, como é óbvio, que elas não se realizem ou, ao se realizarem, aconteçam “meia-boca”. Complicando, consequentemente, o cenário futuro.  
 
A própria proximidade das eleições deverá gerar ainda outras dificuldades para que o Congresso Nacional participe de forma positiva e eficaz nesse processo, posto que a exposição pública, na defesa de temas impopulares, jamais foi desejável para qualquer político. Adicione-se a isso o fato de que grande parte dos políticos – em todas as esferas - quer se livrar das acusações de ‘caixa 2’. Para tanto não se furtará, diante da possibilidade de se realizar um acordo abrangente, ‘deixar prá lá’ seja lá o que for.
 
A operação Lava Jato, por sua vez, ainda poderá apresentar muitas surpresas e gerar mais turbulências e, em alguns casos, até incontroláveis. O Nexo Jornal, ao publicar seu editorial no último dia 16, observou corretamente o fato de que, nestes último dois anos o Brasil “pode ter cinco votações decisivas que influem em quem comanda o Palácio do Planalto. E nenhuma passa pelo voto popular”. É correta a conclusão do Editorial, pois esse processo, no qual são apenas os juízes e os parlamentares que decidem quem comanda o país, ainda não terminou. 
 
Este quadro de extraordinária gravidade, além de expor parte das instituições brasileiras a um elevado grau de fragilidade, promove altíssimos índices de desconfiança e descrédito junto a toda a população, aos setores produtivos, às organizações internacionais e a governos de outros países. Empresários, empreendendores, investidores, financiadores ou consumidores, desconfiados, não se dispõem a empreender, a investir, a financiar ou a consumir, agravando a situação econômica e postergando o equacionamento daquele que é, se não o maior, um dos maiores problemas que tem o Brasil atualmente: o desemprego de aproximadamente 14 milhões de brasileiros. 
 
A manutenção do desemprego, da desigualdade e do péssimo serviço público prestado (além de serem diários e diversos os exemplos que ilustram o “calvário” do brasileiro típico ao buscar atendimento em qualquer “repartição pública”, as perspectivas não são de melhora, dados os indícios de cortes orçamentários previstos), ainda a perdurar por um tempo, deverão aumentar os graus de insatisfação de toda a sociedade e levar a “paciência” popular ao limite. Isto estreita o caminho a ser trilhado, diminui as opções e força a procura de soluções que evitem a concretização de um caos completo. E que, paralela e consequentemente, evitem o surgimento de “aventureiros”, pródigos na proposição de soluções imediatistas, fáceis e populistas. Inclusive que afrontem a Constituição, o Estado de Direito e a própria Democracia (7). 
 
Apesar de tudo, neste obscuro e complexo cenário brasileiro, é fundamental que se reconheçam os pontos positivos gerados pela crise (e outros que ainda estão por vir) e, a partir daí e novamente, plante-se a esperança. Não se pode esquecer que:
 
• Reformas estruturais importantes foram aprovadas ou estão encaminhadas para discussão (PEC do Teto, Reforma Trabalhista, Reforma Previdenciária, Reforma do Ensino Médio e a Lei do Petróleo, por exemplo), apesaar de todas as dificuldades impostas;
• Reformas microeconômicas, imprescindíveis, também estão em discussão ou em aprovação (de crédito e de infraestrutura são dois exemplos importantes);
• As instituições, apesar de alguns conflitos e de ‘forças contrárias’, estão resistindo, funcionando de forma satisfatória e cumprindo seus papéis institucionais, inclusive no combate à corrupção;
• Os assuntos políticos, e mesmo econômicos, estão sendo discutidos à exaustão, não só nos meios de comunicação, mas também por grande parte da população brasileira, que se acostumou com esse tipo de noticiário. É possível que o brasileiro comece a aprender com os erros cometidos;
• O Brasil mantem sua importância no contexto mundial e, apesar das más notícias, algumas até vexatórias, tem mostrado que está buscando, mesmo parcialmente, mas de forma transparente, tomar as providências que se fazem necessárias; 
• A inflação foi vencida e o câmbio e a taxa de juros estão sob controle
• A Balança Comercial continua gerando resultados positivos e as Reservas brasileiras, em 2016, alcançam US$ 365 bilhões (em 2003 eram US$ 50 bilhões);
• O setor agrícola continua tendo resultados cada vez melhores, não só em produtividade (aumento mais de 80% em 20 anos) mas também no total produzido. Em 2017 serão produzidas 234,3 milhões de toneladas de grãos em 60 milhões de hectares, com produtividade de 3,91 toneladas por hectare. Em 1997, para a produção de 74,8 milhões de toneladas de grãos, foram utilizados 34,5 milhões de hectares, ou seja, 2,17 toneladas por hectare;
• A crença no mercado brasileiro continua existindo e a entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos tem sido satisfatória (8);
• O BNDES já opera sem a política de “campeões nacionais”, que entre 2008 e 2014, pegou emprestado da União, R$ 716 bilhões (9);
• A OMC (Organização Mundial do Comércio) já reconhece o Brasil como o País, entre os maiores do mundo e desde outubro de 2016, que mais tem adotado medidas para facilitar o comércio com o exterior e facilitar o comércio internacional. Medidas que reduzem tarifas de importação e desburocratizam o fluxo comercial com países estrangeiros estão sendo tomadas;
• O ministro Henrique Meirelles e a equipe econômica, seja qual for a solução política e segundo a maioria do noticiário, deverão ser mantidos.
• A estabilidade está sendo mantida e a recuperação da economia, mesmo que de forma lenta, está sendo obtida. Longe ainda do que se precisa, os dois primeiros trimestres de 2017 apresentam números promissores. 
 
É indiscutível que o Brasil, com a crise e apesar dela, tem conseguido obter alguns ganhos institucionais importantes, pois a população, mais informada (a imprensa continua livre), também está mais envolvida e percebeu, de forma clara e inequívoca, que a movimentação política e o voto são importantes na vida dos cidadãos. Passou-se a acreditar que gente poderosa também responde à justiça e pode ser presa como qualquer pessoa comum. As classes políticas e dirigentes, por sua vez, sob o risco e o medo de ‘perderem os dedos’, sabem que precisarão ter respostas imediatas aos anseios da população.
 
Como escreveu Míriam Leitão (10), há que se acreditar no Brasil, pois é o maior país do mundo em biodiversidade, tem terra suficiente para dobrar a produção de alimentos sem desmatar, tem o maior potencial de produção de energia de baixo carbono por quilômetro quadrado e tem uma população de tamanho ideal, nem pequena que seja um limitador, nem grande demais que seja um peso. “O Brasil, por seu tamanho e por certas escolhas econômicas do passado, é muito fechado em si mesmo. Só que o clima, a tecnologia e a economia instalaram definitivamente a era da interdependência”. “É hora de abrir as janelas, olhar o mundo, fazer as escolhas e seguir o mapa do caminho que pode nos levar a níveis elevados de desenvolvimento”.
 
“O Brasil tem ativos ambientais e o agronegócio está entre as maiores vantagens competitivas do Brasil no mundo globalizado, devendo ser pensados juntos”, diz Sylvia Coutinho, presidente da UBS do Brasil (11).
 
Considerando as atuais circunstâncias e mesmo que ainda possa haver pequena piora, sem chegar, evidentemente, no cenário de caos completo, acredito, é fundamental:
 
• Não acreditar que tudo está errado e que tudo precisa ser mudado;
• Diante da falta de líderes e de forças políticas confiáveis, tomar cuidado com o radicalismo, o populismo e a resolução fácil de problemas complexos;
• Buscar políticos, e eventualmente candidatos, que se comprometam a manter os ajustes e as reformas imprescindíveis – mesmo que dolorosas – que tenham o objetivo de estabelecer bases para a melhora das condições políticas, sociais e econômicas nacionais;
• Mesmo que o foco ainda seja econômico, adotar políticas sociais sérias e voltadas ao desenvolvimento das pessoas, notadamente na Educação (12), na Saúde e na Segurança Pública;
• Adotar medidas que resgatem, na Política, na Economia, na Administração Pública e nos Negócios, a Moral e a Ética;
• Rediscutir o que queremos do Estado, ou melhor, que Estado queremos. Enfrentar um patrimonialismo pernicioso e que tanto tem caracterizado o Estado brasileiro;
• Promover profundas reformas na Política e nos Sistemas Partidário e Eleitoral. Se possível, já para as eleições de 2018, uma vez que a forma de se financiar as campanhas políticas precisa estar claramente definida;
• Ter coragem para desenvolver um programa efetivo e permanente de informações no qual seja desmonstrado, com clareza e realismo, o tamanho e a gravidade da crise atual. Não há outra forma, pelo menos Democrática, de comprometer e envolver a maioria da população, dos empresários e da sociedade civil, na construção desse processo reformador. Sem medo, é preciso fazer o quê precisa ser feito (13).
 
Para finalisar quero reproduzir duas frases que, para mim, ajudam a trilhar o caminho que deverá levar os brasileiros ao seu futuro tão esperado:
“Se o Congresso quiser marchar contra a vontade popular, que marche. Se o Supremo continuar essa enganação para proteger políticos, que continue. Importante é a sociedade compreender isso com clareza. E convenhamos: se quiser tolerar tudo, que tolere. A chance de dar uma virada e construir instituições democráticas está ao alcance das mãos. Com um décimo da audácia dos bandidos, as pessoas bem-intencionadas resolvem essa parada” (grifos meus). “O ano da encruzilhada”, texto de Fernando Gabeira para O Globo de 11/12/16 e reproduzido em seu livro “Democracia Tropical – Caderno de um aprendiz”, editado pela Editora Estação Brasil, 2017.
 
“Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir” (grifos meus). Texto de Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, goiana, foi uma das maiores poetisas brasileiras (20/08/1889 — 10/04/1985).
 
Mesmo que Deus não seja brasileiro, há outro ditado que diz que “Deus ajuda a quem cedo madruga”. O futuro do Brasil, como um país melhor, agora um pouco mais distante, depende somente dos brasileiros (14). Até porque todos estão ficando cansados desta crise que já se arrasta por mais de três anos e da ‘mediocridade’ que caracteriza a maioria de nossos políticos e de nossa classe dirigente. É preciso coragem para encarar a realidade como de fato ela é e tomar as atitudes necessárias, por mais ‘amargas’ que possam ser. Parafraseando texto escrito por mim e aqui já citado, “é preciso ir ao dentista”. 
 
1) Segundo estudos de José Roberto Afonso e Kleber Castro, pesquisadores do IBRE/FGV, a carga tributária, entre 2008 e 2017, passou de 34,8% do PIB para 32,7%. Especificamente, no que diz respeito à arrecadação do Governo Federal, houve uma perda de 2,4% nesse período. Nos últimos 12 meses, encerrado em maio de 2017, a arrecadação federal ficou 8% menor se comparado com igual período de 2014, em termos reais. 
 
2) Artigo de Alexa Salomão e Cleide Silva (“Envelhecido, sistema de cobrança de impostos derruba arrecadação”) comenta estudo realizado pelo economista José Roberto Affonso, do IDP (Instituto de Direito Público), no qual ele demonstra que “mudanças na forma de contratar profissionais, do uso de novas tecnologias e da robotização das linhas de produção” fizeram com que a arrecadação de impostos ficasse menor. Ainda, segundo seus estudos, entre 2011 e 2016 a arrecadação total caiu 0,81% por esses motivos. Na Indústria essa queda foi de 1,45%, no setor de Serviços houve alta de 0,65% e no agronegócio não houve alteração.
 
3) Só para 2017 há cerca de R$ 72 bilhões em receitas extraordinárias. Refis, Concessões e Permissões, Venda de Ativos e Programas de Repatriação são algumas das principais contas consideradas. Entretanto, conforme estudo feito por Gabriel L. de Barros, diretor adjunto do IFI (Instituto Fiscal Independente), parte dessas arrecadações, por motivos diversos, poderão não ocorrer e, caso ocorram, não seriam nos valores esperados (Jornal O Valor de 26/07/17). Por exemplo, quando a proposta referente o Refis foi enviado para o Congresso, o governo esperava arrecadar, ainda em 2017, mais de R$ 13 bilhões. Com as diversas alterações feitas pelos congressistas, a arrecadação não deverá superar os R$ 500 milhões, segundo fonte do MF. Uma diferença ‘e tanto’.
 
4) Dados da própria Previdência dão conta que o os déficits foram de R$ 56,2 bilhões, R$ 64,6 bilhões, R$ 68,9 bilhões, R$ 95,1 bilhões, R$ 151,9 bilhões e R$ 181,2 bilhões, respectivamente, para os anos de 2012, 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017. Para 2017 o valor apresentado é previsão.
 
5) Estatísticas apresentadas no documento Atlas da Violência 2017, elaborado pelo IPEA e pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), dão conta de que, no Brasil, mata-se mais do que em muitas guerras que, de forma assustadora, vimos estampadas no noticiário internacional. A Guerra entre Israel e Palestina, alcançou o número de 66 mortes por dia. No Brasil, com aproximadamente 56.000 pessoas mortas anualmente pela violência, chegamos ao triste número de 154 mortes por dia! 28,9 mortes por 100.000 habitantes. Segundo a ONU, acima de 10 mortes por 100 mil habitantes, caracteriza-se “violência epidêmica”.
 
No trânsito também estamos em péssimas condições. Com aproximadamente 45.000 mortes por ano, o Brasil está entre os 10 países que mais tem mortes por acidentes de trânsito.  
 
6) Essas dificuldades políticas foram abordadas por mim nos textos “A recuperação do Brasil é difícil por si só, mas se depender de grande parte dos políticos brasileiros, ela será impossível”, de 23/11/2016 e “Aos trancos e barrancos (ou de carteiradas em carteiradas) o Brasil vai seguindo seu caminho para um futuro cada vez mais imprevisível”, de 09/12/2016.
 
7) “Em era de incertezas, a Democracia é fundamental” é o título de texto escrito por Paulo Roberto Guedes para o portal Guia do TRC em 21.02.17;
 
8) Relatório Mundial de Investimentos, publicado pela UNCTAD (Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento), apontou que em 2016 o Brasil ficou na 7ª posição como um dos principais países em atração de investimentos estrangeiros (US$ 59 bilhões, equivalentes a 3,4% do Investimento Estrangeiro Global). Em 2015 o Brasil ficou na 8ª posição (US$ 64 bilhões) e em 2014 em 4ª posição (US$ 66 bilhões). Segundo a SOBEET (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalizadas) as empresas estrangeiras aplicaram 60% para expansão de atividades e 24% para novas unidades; empresas brasileiras: 48% em novas unidades e 27% na expansão. 
 
Zeina Latif, economista-chefe do XP Investimentos, em sua coluna de 22.06.17 no Estado de São Paulo: “Os estrangeiros, menos contaminados pelo noticiário local, avaliam de forma mais serena e pragmática os riscos pela frente. Eles têm visão mais global e não veem o Brasil como caso isolado de país problemático. Outra característica valiosa dos estrangeiros, que afeta o seu olhar sobre o Brasil, é a tendência ao pragmatismo e à ação. Eles querem saber mesmo o que vem pela frente: como fica a agenda de reformas, o time econômico, a política econômica, o risco de deslize fiscal e o espaço para cortar a taxa de juros. Querem discutir as oportunidades“. 
 
“A confiança do investidor: não ocorreu saída de recursos para o exterior, muito pelo contrário, os investidores reforçaram a posição de compra de títulos públicos e ações de empresas brasileiras em seu portfólio nos últimos meses”, é uma das conclusões da “CARTA DOS ECONOMISTAS DE SÃO PAULO”, elaborada no I Encontro dos Delegados Regionais, Municipais e Distritais do CORECON-SP, realizado no dia 1º de julho de 2017, em Araras-SP.
“O Brasil continuou a atrair um volume expressivo de capitais. A taxa de câmbio flexível tem sido um importante absorvedor de choques e as reservas internacionais representam uma grande proteção, atingindo US$ 365 bilhões em 2016”, comentou o FMI em seu Artigo Quarto de Consultas, publicado dia 13 último.
 
9) Segundo dados preliminares apresentados pelo Senador Álvaro Dias (Podemos/PR), em discurso na tribuna do Senado Federal no dia 30/05/2017, entre 2008 e 2014 a União emprestou ao BNDES, R$ 716 bilhões (equivalentes a US$ 266 bilhões). Esses recursos, em sua maioria, foram emprestados às empresas conhecidas como “campeãs nacionais” a juros de 5% a 6% ao ano. Ao mesmo tempo, tomava junto ao mercado, empréstimos com juros de 14,25% aa. O resultado desses subsídios empresariais: R$ 184 bilhões para serem liquidados até 2060!
 
10) Miriam Leitão: História do Futuro: O Horizonte do Brasil no Século XXI. Intrínsica, 2015.
 
11) Entrevista dada para Maura Campanili do Instituto Escolhas, no último dia 05, da Presidente da UBS Brasil, Sylvia Coutinho (“Brasil precisa ser verde para crescer e ganhar mercado”). 
 
12) “Priorizar concretamente a Educação é a única solução para o Brasil”, artigo de Paulo Roberto Guedes, publicado no Guia do TRC em 05.05.17.
 
13) Comentei em artigo publicado no dia 06/06/2017, o medo que o Brasil tem de fazer o quê precisa ser feito (“O Brasil é um país que tem medo de ir ao dentista. Está ficando banguela.”).
 
14) “A solução ainda depende do povo brasileiro”, artigo de Paulo Roberto Guedes publicado no Guia do TRC em 17.04.17.
Fonte: * Paulo Roberto Guedes é consultor de empresas e professor do curso de Logística Empresarial do GVPec, da EAESP/FGV.
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